A voz do Surdo são as mãos e os corpos que pensam, sonham e expressam. Pensar sobre a Surdez requer entrar no mundo dos Surdos e ouvir as mãos que, com alguns movimentos, nos dizem o que fazer para tornar possível o contacto entre os mundos, Língua Gestual. Requer conhecer a ouvir essas mãos, pois somente assim será possível mostrar aos Surdos como eles podem ouvir o silêncio da palavra escrita. (IV Congresso Nacional da Juventude Surda, 2005).
“Todos sabemos que uma criança não nasce a saber falar. Desde que vê a luz até ir para o ensino básico, é exposta à voz das pessoas que a rodeiam, incitando-a a interagir com essas vozes, construindo as bases daquilo que irá ser a sua língua natural.(…) No entanto, é isso que acontece, ainda hoje, com as crianças portuguesas que nascem Surdas, normalmente em famílias de ouvintes, já que lhes é bastante difícil conseguir o desenvolvimento de uma língua materna pelas vias normais.
É óbvio que, perante um sistema de ensino desadequado à natureza de uma criança Surda, os resultados medíocres são inevitáveis. Não há justificação para continuar a ignorar esta marginalização e deseducação, quando nos outros países as soluções existem e são bem sucedidas. É um sistema injusto que ainda não aprendeu com os erros do passado, e que insiste em não garantir às crianças surdas o desenvolvimento de uma língua visual através da Língua Gestual Portuguesa (LGP).
Apesar de a comunidade Surda ser uma minoria, é-o em quantidade suficiente para justificar um maior apoio e colaboração na resolução dos problemas específicos da sua vivência numa sociedade ouvinte. (…)
Mas, por vezes, as diferenças que um Surdo nunca conseguirá eliminar dão origem a situações insólitas que podiam ser evitadas. (...)
Embora se compreendam actos de ignorância pura contra os Surdos nos tempos da Idade Média, nada se compara ao que um grupo de pseudo-intelectuais é capaz de fazer quando lhes dão o poder de decisão sobre assuntos que não compreendem. (…)
As dificuldades sentidas pelos Surdos são, por vezes, frustrantes, mas as coisas não precisavam de ser dessa maneira. A comunidade Surda não exige, no fundo, nada de especial, (…) apenas que haja respeito pelas diferenças.
IV Congresso Nacional da Juventude Surda (29 de Maio de 2005).
Rui Pinheiro (rmp@mega.ist.utl.pt)
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
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